• Imbradiva e.V

CLAREANDO A MENOPAUSA

Minha mãe tinha quarenta anos quando nasci. E oito filhos antes de mim. Mas todos nascidos bem antes. Cresci, portanto, somente com uma irmã quatro anos mais velha do que eu.

Cresci com uma mãe “menopáusica”. Um dia, assim. Outro dia, assado. Montanha russa. Lembro de ouvir sobre o termo e de ela ter ido ao médico, o qual receitou a ela calmante tarja preta, lembro-me o nome, Gardenal. Lembro também que eu, acho lá com meus oito ou nove anos na época, fiquei bastante impressionada com um remédio que continha uma „tarja preta“. Curiosa como era, devo ter perguntado até, mas como era de costume, ninguém me explicou.


Talvez tenha sido por conta deste cenário da minha infância que eu tenha crescido curiosa sobre o tema menopausa e sempre que me senti próxima de mulheres acima de 60 anos, perguntava a elas como haviam passado por esta fase.


Também houve em algum momento, já sabida do significado do termo “tarja preta”, quando sentenciei o médico que prescreveu o calmante à minha mãe na menopausa de grandessíssimo incompetente. Hoje, um tanto mais conhecedora da minha própria estrutura psíquica – e assim mais capacitada em entender o outro - compreendi que a inconstância do temperamento de minha mãe não era necessariamente relacionada à menopausa por qual ela passava, mas sim um tema constante na vida dela. E na nossa, como filhas e filhos dela.


Esta nova perspectiva alcancei por sorte através de uma psicanálise clássica que iniciei aos 34 anos. Psicanálise clássica: três a quatro vezes por semana durante dois anos, começo meio e fim – e, com a psicanálise, ganhei as ferramentas que iria necessitar para me ajudar a navegar pelas tempestades que temos que atravessar vida afora mantendo a estabilidade emocional, fazendo o menor mal possível a nós mesmas e às pessoas com que convivemos.

E eis que chegou o tema menopausa na minha vida, no meu corpo.


Por volta dos 42 anos eu devo ter entrado na pré-menopausa. Nesta fase da vida, por ter tido meu único filho aos 25 anos, separação, o começar de novo, me encontrava no auge da minha vida profissional a milhão por hora sem muito tempo para pensar além de executar projetos, de viver.


Como é que senti que estava entrando na menopausa? Quando tive que comprar absorvente interno XXL, tamanho este que até então eu não sabia para quem servia – para a mulher do King Kong? brincava - mesmo tendo tido a vida toda sangramentos fortes. Voltei nesta fase a ter um fluxo similar à primeira fase da menstruação na adolescência: muito sangue, trocando o XXL com frequência. Também o fato de que minha menstruação, até então, tinha sido sempre pontual, de 28 dias, daí para frente começou a oscilar. Aí, um ano após outro, vieram o ranger dos joelhos, da nuca…. mais tarde, vieram dores nas articulações que me impediam a seguir praticando as ginásticas e esportes que pratiquei toda a década que se antecedeu a esta fase. E, acima de tudo, de andar sem dificuldades, pois nesta fase operei um esporão no osso do dedão do pé direito e este dedo aos poucos foi se transformando num hallux rigidus (e não hallux valgus) me trazendo dificuldades do simples movimento de andar. Justo eu que sempre vivi com rodinhas sob os pés. Parei de fumar, bebia pouquíssimo e nada de melhoras.


Aos 45 anos, diante às minhas queixas, o ginecologista sentenciou: você esta na menopausa, aceite.


Aceitar? Como? Não! Pois afinal eu precisava - e queria! - seguir minha vida de empresária em uma área altamente de risco e portanto de muito estresse e já começava a dar sinais de fadiga mental - que eu chamava de cabeça de esponja - além do óbvio desgaste das articulações e o novo “medo de escadas”. Era isso tudo efeito da famosa menopausa ou era eu que estive exigindo o tempo todo por demais de mim mesma em todos os sentidos? Até que ponto o relacionamento relativamente recente com um cara que me apaixonei, mas que se mostrava a cada conflito mais tóxico, estava pesando ainda mais sobre meus ossos e me “engessando”? Liguei a detetive dentro de mim e comecei uma pesquisa refinada de informações tanto sobre o tema das minhas dores nas juntas, sobre os efeitos da menopausa - e mitos - como também por que diabos eu fui cair de volta nesta arapuca sentimental com uma pessoa que não era parceira.


Passei, para além da leitura, a testar vários métodos e ver no que resultavam. Um deles foi a decisão acertadíssima de fazer um “retreat” na Andaluzia com um casal de sábios onde aprendi através deles a voltar a me reconectar com a simplicidade da vida e com a natureza. R E S P I R A R e S E R simplesmente. Desconectar deste mundo desconexo em que vivemos e conectar com o essencial. Sair do turbilhão da vida das cidades e do inútil acesso à informação em demasia e poder ver - e compreender - que existem outras formas de se viver e que provavelmente são inclusive muito mais plenas do que a que eu vinha experienciando.


Também busquei orientação na Ayurveda, na TCM e recebi a indicação de uma ortopedista de um médico que confiava bastante e ela me examinou como acho que nenhum médico antes havia feito. Ao final dos exames, eu disse a ela que estava na menopausa e ela me perguntou o que meu ginecologista havia dito a respeito e respondi: que eu aceite. A médica, uma mulher de seus 60 anos, bastante ativa, ficou tiririca, disse que não era assim, que eu era bastante jovem para estar me sentindo assim e que ela conhecia uma médica que fazia reposição hormonal. Eu disse a ela: reposição hormonal eu sou contra. Ela disse: mas ela faz com hormônios bioidênticos. Bio-quê?


E lá fui eu jogar por terra meus preconceitos colhidos entre as senhoras que entrevistei vida afora e uma vez mais enfiar meu nariz em livros e artigos fundados para entender de onde vem o preconceito delas e o meu sobre este tema. Li sobre os estudos publicados nos anos 70, principalmente nos EUA, que traziam dados sobre mulheres que fizeram reposição hormonal na época e que tiveram um aumento considerável de casos de câncer entre elas. Li sobre argumentos atuais, de que o grande equívoco no passado foi as mulheres receberem somente o estrogênio sem o a progesterona, já que uma substância não existe sem a outra no corpo da mulher. Também que as doses eram muito altas. Em que acreditar? Assustada com a dor e sem saber o que mais fazer, confiei principalmente na ortopedista e fui para a médica de reposição hormonal. A primeira pergunta que ela me fez foi se eu estava lá por causa do suor do climatério. Eu disse não, que para isto uma amiga já havia me indicado capsulas de um remédio natural com base na planta Actaea racemosa e que super funcionava. Disse que estava ali pelas dores nas juntas e por estar dormindo mal, apesar de precisar estar fit mental e fisicamente para meu trabalho. Também de não mais poder descer escadas correndo como antes. Ela me explicou do jeito dela - sinceramente não me simpatizei muito com o “jeito dela” - como tudo funciona nesta fase, que nós mulheres somos as verdadeiras criaturas andróginas - que necessitamos de hormônio masculino - e com o resultado do teste nas mãos, me mostrou a curva - precipício - de meus hormônios e que uma queda acontece as vezes de forma abrupta, em curtíssimo espaço de tempo. (O que para mim explicava, eventualmente, tanto a recente fase „cabeça de esponja“, quando em um evento eu perdi documentos importantes sem sequer me dar conta por dois meses, como também para as dores nas juntas que passei a sentir fazendo os mesmos exercícios físicos que era habituada anos antes).


Decidi por fim, ainda cheia de receios, entrar na tal reposição hormonal a ver se me ajudava a voltar a viver melhor mesmo que diferente de antes. Quanto a isso, eu já não tinha ilusão, começando pelos limites que meu próprio pé direito me colocava. Recebi a receita para um gel de estrogênio “bioidêntico”, manipulado em uma farmácia indicada pela médica e que custava 60 euros e que durava pouco mais que 30 dias, fora os outros suplementos como Omega3, complexo B, etc. Ela me receitou também o hormônio DHEA para a minha “insegurança com escadas”, para compor a parte “andrógina” que ela havia mencionado e que, segundo ela, me ajudaria também a lidar com a brutalidade do estresse do meu trabalho, apesar da menopausa. Este hormônio aliás é conhecido como “pílula da juventude” e é altamente controverso entre especialistas no mundo todo. (eu parei com ele após uns dois anos, pois, além de ter crescido muitos pelos no corpo, ainda comecei a ter acne e caspa, feito homem jovem rs). Quanto ao progesterona, tenho que contar - sem querer convencer ninguém de seguir o mesmo caminho - que quando chegou e tomei aí pelas 21h, caí num sono tão profundo e renovador que parecia que fazia 100 anos que eu não dormia. Foi lindo e inesquecível neste aspecto, mas de resto, segui no primeiro e segundo ano muito insegura sobre se estava fazendo certo ou errado e, quando buscava grupos na internet sobre o tema, só encontrava mulheres ainda mais perdidas do que eu. Além de que tenho um pé atrás com este mercado anti-aging, que é onde a gente encontra estes tratamentos na maioria das vezes, sob o manto do feminismo, de que não são mais difundido entre nós porque os homens não querem mulheres velhas fit…. argumento que convenhamos não parece de todo equivocado se formos olhar na repressão sexual feminina na historia desde o início da “luta dos gêneros”. Mas independente de abordarmos teorias, fica-se também com a sensação de que somos apenas cobaias para fazer dinheiro. Alguns médicos que perguntei estão certos disto. Nada é pago pelo seguro de saúde, nem a médica, nem os remédios. É um tratamento consideravelmente caro. Inclusive, um dia no meu médico clínico-geral, eu toquei no assunto e perguntei a diferença do estrogênio manipulado e daquele que há pronto na farmácia e ele disse: dinheiro para sua médica? Quando retornei médica de hormônios mencionei o tema deixando-a bem enraivecida, mas, por fim me receitou um preparado da farmácia, dizendo que o problema é que o gel da farmácia tem a dosagem muito alta. Hum! Custa porém cinco vezes menos e se pode dosar apertando o tubo pela metade.

Mas e o medo de causar mal à saúde? E a quantidade de pílulas diárias além do gel? Já me senti velha só de pensar! E todas as senhoras de 60 que consultei e que na maioria passaram bem pela fase sem nada?


Resumo que foram anos difíceis entre 44 a 48. Me senti bastante solitária por ter seguido esta opção da reposição hormonal. Minhas amigas mais velhas se dividiam entre aquelas que ou nunca haviam sentido nada dos sintomas de menopausa - da forma que eu estava sentindo - ou que falar do tema menopausa era tabu. Coisa de velha! dizia uma amiga de 50 anos que inclusive ficou possessa comigo, quando na época de Facebook - já não tenho mais perfis pessoais desde 2018 - após um final de semana juntas com outra amiga, onde elas postaram uma foto de nós três juntas e eu comentei: gatas na menopausa e com muito orgulho virando o ciclo. Ela mesma, que cruelmente um ano depois passou a encarar o tema, usando de uma “brincadeira” com as demais amigas perguntando a elas se a “buceta desta ou daquela já estava seca” com gargalhadas maldosas. Claro, nem todo mundo tem a capacidade de viver a vida com autenticidade e para estas pessoas é tabu falar tanto de menopausa como de que se vai a psicanálises. Parecem a princípio dois tópicos diferentes, mas não são, pois escondem por trás da ação o mal do mundo: a necessidade de externalizar perfeição, a ilusão do tolo. Também existem aquelas mulheres que estavam/estão na mesma fase que a minha, mas que possuem a possibilidade de deixar o ciclo ser de forma natural por terem ocupações menos estressantes e de menor responsabilidade. Esta última é sem dúvida a melhor das versões que se fosse eu escolher, queria ter tido para mim. Para as mulheres na década dos 30 que estejam lendo este meu texto, indico, se possível, trabalharem em si mesmas para pertencerem a este último grupo (no mínimo na atitude de não se sentir salvadora do mundo). Este modelo requer muita reflexão e constante busca de autoconhecimento para não sucumbir às exigências de nossa sociedade cada vez mais narcisista, vazia de conteúdo mas altamente exibicionista. Exige uma luta interna para não ir com a onda alheia, mas fazer escolhas próprias, com autonomia - mas sem radicalismo.


Hoje, estou com 51 anos e sigo usando os dois hormônios “base” (estrogênio e progesterona), mas com a certeza de que não será por muito mais tempo. Minhas dores nas juntas diminuíram bem ou vamos dizer, estão mais sob meu controle. Entendi que não posso esperar que alguém faça algo e me tire a dor. Mas existem métodos por aí que podem nos servir de ferramenta e bons profissionais. Só que o maior trabalho fica mesmo em nossas mãos. Reduzir a quantidade de esporte e começar a alongar mais que o tempo de esporte foi uma nova consciência. Para quem tiver com problemas do gênero ficam aqui registrados o método fisioterapêutico da Spiraldynamik e também o casal Liebscher&Brach, para mim ajudou. Também ter alterado a alimentação esquecendo - fora uma ou outra vez - os pratos clássicos e optado por uma alimentação mais leve e pobre em gordura animal fazem tanto diferença para as juntas como para poder também manter as mesmas roupas do armário - o que para mim é importante já que adoro minhas roupas e não gosto de comprar novas. O metabolismo fica mais lento e por isto inclusive movimentar-se fica mais imprescindível do que antes, para ajudar o intestino a funcionar melhor e para lubrificar as articulações. Por causa do meu pé direito passei a nadar e remar, dois esportes que não exigem a flexão dos dedos. Assim deve ser para nós todas, buscar nichos e pegar leve. Eu, por exemplo, nunca tive problema algum com digestão ou intestino, mas juntando a falta de movimento pela pandemia, a Indische Flohsamen tomada duas colheres de chá dentro de um copo de água e outro copão de água em cima fazem uma grande diferença e me ajudam a ter menos ar na barriga. Para as articulações: tomar um copão de água morna ao levantar com uma colher de sopa de vinagre de maça de boa qualidade faz diferença, é adstringente e tira a acidez, que, segundo consta, vai parar nas articulações. E é uma receita milenar de várias culturas. Tanta água ao acordar, né? Eu aproveito e fico só na água até dar meio-dia e, assim, entro no outro „anti-aging“ natural que é, segundo as mais recentes descobertas de que o intestino é nosso segundo cérebro, deixá-lo 16 horas sem ter que trabalhar para fazer digestão de alimentos, só com líquidos, o possibilita renovar células em nosso corpo. Mas não sou ortodoxa, faço quando estou em fase de me cuidar e, quando estou bem, aproveito para me permitir excessos, pois afinal não se sai desta vida com vida, não é?



Após contar aqui um pouco da minha biografia, anedotas, experiências, reclamar de dores e dar algumas dicas, gostaria de deixar como reflexão sobretudo, da importância de ouvirmos nosso corpo e respeitar o processo dele. Além de virar a vida, se for necessário, para nos catapultar no ambiente certo e com as pessoas certas, e assim viabilizarmos esta importante passagem em nos tornarmos mulheres ainda mais plenas nesta nova fase que exige mais qualidade de vida. Finalizar a relação com o mencionado ex-namorado, por mais difícil emocionalmente que tenha sido ir contra o “sentimento de paixão”, foi fácil, pois eu me sentia vulnerável e vi em um certo momento claramente que, naquela relação, ele sempre iria exigir a vulnerabilidade exclusivamente para ele. E quanto à minha vida profissional, que seguia de vento em poupa paralelo a todo este processo, iniciei a dizer não a projetos que mais me davam dor de cabeça que qualquer resultado positivo, independente de tamanho ou status. E reduzir e reduzir, tudo. Entendi que já vivi e produzi o suficiente e que, independente do conteúdo, o próprio tempo de vida me dá o direito de não ter que provar mais nada a ninguém e que de fato: menos é mais. Ironicamente, usei muito este slogan no meu negócio, mas não usava na minha vida. Me sinto hoje também muito mais livre, pois não necessito estar a par de tudo o que acontece para viver uma vida satisfeita. Muito pelo contrário, tenho procurado ir contra todo este movimento de excesso que a facilidade da internet nos proporciona - que, se me permitem, considero a pré-histórica dentro da era da Técnica ou seja lá como se denominará esta nossa era - e me sinto indo cada vez mais no meu verdadeiro potencial. Tenho olhado muito mais para mim e tenho a certeza de ter as pessoas ao meu lado que estão dispostas e felizes em fazerem parte da minha vulnerabilidade e do meu crescimento para esta nova mulher - a amiga cruel certamente não faz parte! hehe E entender que poder mostrar vulnerabilidade é sinal de maturidade e de força, de se permitir ser falível, de ser humana, de se ser quem se é de verdade. Mas isto só é possível quando nos sentimos envoltos em uma redoma de algodão que na maioria das vezes são representadas pelas amigas, amigos, parceiro/a e que só serão certos, se tivermos tomado o caminho de nos ouvir, entender, aceitar e de respeitar nossos limites.

Não sei de quem é a expressão, mas gosto e entendo como verdade: crescer internamente não é mudar-se, mas sim nos tornamos aquilo que somos de verdade. Em outras palavras: é desconstruir. Eu precisei construir muito para sobreviver bem e tenho que desconstruir ainda muito mais para viver melhor. E, neste caminho, eu encontro cada vez mais com a menina sensível e mais introspectiva que carrego dentro de mim e que pode finalmente ocupar mais o palco da vida, já que a mulher adulta trabalhou quase sem pausa no backstage, para que este momento fosse possível. E boa parte destas conquistas pessoais, destes frutos docinhos que começo a colher, chegam até a mim com a menopausa. E sem tarja preta.

A rapadura é doce mas não é mole não….


E você, o que tem para contar sobre este tema?



Clara Maria da Silva